Somos Todos Iguais

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Estou profundamente convencido que Deus está a trabalhar, desde sempre até este preciso instante no coração de todas as pessoas. Não apenas dos Cristãos, de todos os homens! Se isto é verdade, que é, o nosso tribalismo cai por terra. Não somos diferentes, somos iguais. Qualquer tentativa de diferenciação que ignore esta igualdade torna-nos irrisórios na melhor das hipóteses, repulsivos na pior (AKA ‘somos filhos de Abraão).

Somos iguais. E é por isto que podemos fazer a diferença, porque somos iguais, porque podemos falar de igual para igual. Deus para se fazer comunicável, encarnou, fez-se igual aos homens. E nós, se queremos chegar aos nossos irmãos temos de abraçar a nossa igualdade. O mundo procura pessoas iguais, diferentes. Seria de esperar ver um número mais elevado destes ‘iguais diferentes’ nas nossas igrejas, porém nem sempre é assim. E digo mais, quem abre os olhos vê muitos destes diferentes, fora das paredes eclesiásticas, verdadeiros filhos de Deus, no sentido que revelam a Sua natureza. Certamente têm muitas crenças erradas (e nós temos todas certas?), mas o coração está no lugar certo, está cheio de Graça, de Perdão, de Generosidade, de Compaixão, de Serviço, de Amor.

O mundo procura pessoas iguais, diferentes.

No final, como sabemos, Jesus não nos vai perguntar qual o nosso credo, mas qual o nosso coração. “Do coração procedem…” as acções. Tudo começa no coração.
Para mim hoje, considero todos filhos de Deus (crentes ou não) e abraço o meu ministério de ‘sacerdócio universal’ tentando servir a todos na mesma perspectiva, vendo como é que posso servir a cada um. Nem toda a gente suporta ouvir tudo (nem um bocadinho por vezes) na mesma altura, mas isso até entre os ‘da igreja’, talvez até… sobretudo nos ‘da igreja’. Não foi assim com Cristo?

Então e o que fazer dos iguais, iguais? Aqueles que apesar frequentarem igreja parece que fazem mais auto-golos de golos? Precisam de nós. Nós que talvez já andamos a outro ritmo precisamos de considerá-los alvo de serviço e de cuidado. O que certamente não precisam é de algum irrisório ou repulsivo a dizer-lhes que precisam ser diferentes. Ninguém vai ouvir nada vindo de um ‘diferente’, vão desconfiar e rejeitar. E rejeitando geralmente rejeitam juntamente aquilo que importa mesmo a sério.

Ao som de One – U2


Salvar o Mundo, ou,
A descaracterização da pessoa

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A tarefa ambiciosa de “salvar o mundo” ocupa o coração de muitos Cristãos que posso apelidar de zelosos. É de facto um bom desejo, é preferível à indiferença, porém um zelo desorientado pode também causar muitos estragos. Muito pode ser dito a respeito do que queremos dizer com “salvar”, neste texto, porém, gostava de focar-me no que queremos dizer com “mundo”.

É com infelicidade que constato que para a maioria destes zelosos, bem intencionados (vale a pena lembrar), o mundo existe em oposição à pessoa. Na minha opinião salvar o mundo é na verdade não salvar ninguém. É fácil amar a ideia abstracta de mundo, já a concreção da pessoa, dificílimo. Assim, até que se está disposto a todos os sábados à tarde distribuir literatura cristã a desconhecidos, porém acompanhar diariamente o conflito do José é algo que geralmente se descarta. A finalidade é formatar o “evangelizado” à cultura da igreja e depois ir “evangelizar” mais, afinal há um mundo inteiro para se salvar.

Não será que existe em nós ainda um resquício de imperialismo ao querermos que a nossa igreja cresça muito? O que é queremos mesmo alcançar com o nosso empreendimento? É que às vezes esquecemos que salvar a humanidade é o empreendimento de Jesus e não o nosso, nós somos o alvo, não a flecha, somos apenas testemunhas do grande amor de Deus que nos atingiu. Será que perdemos o espírito de pequeno rebanho (ainda que grande)? Às vezes parece que o que se almeja para a igreja é que esta se torne num aviário, onde somos bombardeados com hormónio para crescermos rápido, impessoais, todos iguais. Tão diferente do pequeno rebanho, em pastos verdejantes e conhecidos pelo nome.

Não devemos esquecer que salvar a humanidade é o empreendimento de Jesus e não o nosso, nós somos o alvo, não a flecha, somos apenas testemunhas do grande amor de Deus que nos atingiu

O “todos” é a antítese do “cada um”. O todo é a descaracterização, a redução da pessoa a um número. Quem quer salvar toda a gente não salva ninguém. Seria como querer agarrar todas as bolas de futebol do mundo. Agarramos uma meia dúzia delas com esforço, alguns com mais habilidade talvez conseguirão umas 8 ou 10, daí em diante quanto mais quisermos agarrar, mais vão cair.

Neste sentido a vida é substituída por eventos, precisa-se estratégia para alcançar as massas, e a estratégia funciona tanto melhor quanto mais elementos controlar, e aí a vida suave e natural é substituída por uma vida institucionalizada, programada, reduzida.
Mas a partilha do amor de Deus não pode sucumbir à estratégia porque se assim for comprometemos a essência da mesma, que é o amor e não o dever. Destruímos a naturalidade da vida, das conversas, do ser, do existir. O Espírito sopra onde quer, é onde ele quer e como ele quer, estas coisas não se fabricam.

Quando Paulo escreve a mítica expressão “fiz-me tudo para todos” demonstra a necessidade de personalização da mensagem para cada pessoa. O contrário da estandardização e industrialização das conversões. Só podemos ser intencionais em amar e deixar a semente brotar.
Se buscarmos estar cheios do Espírito bem que podemos abandonar todos os mecanismos humanos. Se acreditamos no poder do Evangelho não precisamos fazer nada, apenas precisamos de ser.


O Dever de Escandalizar

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Há uma coisa que tem de parar de ser dita, “os Cristãos não devem escandalizar”. Não posso estar mais em desacordo com essa afirmação. O Cristão tem é o dever de escandalizar. Se um Cristão não é um incómodo, um escândalo, uma afronta ele não é Cristão coisa nenhuma!

Esta ideia de que não se pode escandalizar deriva de uma exegese errada de algumas coisas que Jesus e Paulo disseram. Jesus fala que escandalizar um pequenino é uma coisa terrível e Paulo adverte para que não escandalizemos o irmão mais fraco na fé.
Esta palavra, escandalizar (dispensamos o grego ok?), nestes contextos, significa ‘levar a pecar’ ou levar a ‘perder a fé’ e é sempre referida em relação àqueles que têm muito pouca firmeza na fé. Nenhuma destas partes da Escritura fala de não agitar a vida monótona e religiosa de um Cristão velho (sim, velho, e nem por isso maduro).

As pessoas que se colocam debaixo deste jugo do não ‘escandalizar’, fazem-no de forma sincera e com o objetivo de agradar a Deus, porém começam a ter uma vida determinada pelas idiossincrasias de uma meia dúzia de crentes chatos e a vida bonita que Deus dá começa a tornar-se numa vida chata, que nem nos parece ser a correcta mas que acabamos por engolir sob pretexto de ’não escandalizarmos’.

‘bem-aventurado aquele que em mim não se escandalizar’

Jesus foi um escandalizador e os seus seguidores também o devem ser. Foi Ele que propositadamente disse, após alimentar uma multidão que o seguia por causa de comida, que quem o segue tem de comer o seu corpo e beber o seu sangue. Ou que usa elementos escolhidos a dedo nas suas intervenções públicas para provocar a classe religiosa e o status quo. Ele que diz ‘bem-aventurado aquele que em mim não se escandalizar’. Ele que ignora os rituais dos judeus, que faz questão de fazer uma série de coisas propositadamente no sábado. Na verdade nem sei porque estou a enumerar, os evangelhos praticamente só contêm escândalos, até mesmo o significado da morte de Jesus na cruz foi vista como uma loucura e um escândalo.

Para muitos talvez a única forma de salvação seja a de um poderoso e violento escândalo, do género daqueles que Jesus reservava exclusivamente para os Fariseus. Jesus já-me escandalizou e isso foi a minha Salvação.

É evidente que escandalizar não é um fim em si mesmo. Desejar provocar nunca pode ser o fim, no entanto pode ser um meio excelente, senão único, para fazer ouvir os os ouvidos moucos e calejados de tanto ignorar os constantes chamados de Deus.
Também não devemos confundir o ser verdadeiro, frontal, nunca duplo, com o ser rude, mal educado e falto de amor. Uma coisa é ter uma coluna vertebral e dizer sempre o que está certo, outra coisa é camuflar o meu péssimo feitio com uma pretensa verticalidade.

Com este cuidado, sigamos o exemplo do mestre e escandalizemos, empurremos as mentes do conforto da religiosidade, espicacemos as brasas dos corações despistados e alheios ao Reino.


O que Deus quer de nós?

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Nós Cristãos, os que seguem a Cristo (sim, ainda é isso que significa), desejamos agradar a Deus, ou seja, fazer aquilo que Ele quer. Fruto deste desejo pomos em prática uma série de actividades onde Deus é o foco (Servir, Louvar, Orar, Ler a Bíblia, Ir à igreja, Obedecer, etc). Até aqui tudo bem, no entanto muitas vezes a nossa boa vontade não resulta em boa actividade. Apesar de Deus conhecer a intenção dos nossos corações e não levar em conta o tempo da ignorância, devemos mesmo buscar conhecer aquilo que ele quer que sejamos e não nos ficarmos apenas pelo desejar. Vamos a alguns exemplos concretos.

Para algumas pessoas Deus é um ser carente e como tal ao Domingo juntam-se para lhe dizer coisas bonitas para ver se ele não fica triste, chamam a isto louvar a Deus. Apesar de Deus ser o alvo do nosso louvor nós não o louvamos porque Ele precisa, ou tem uma necessidade narcisística de ser adorado. Nós louvamo-lo porque temos razões, porque não podemos não ter uma atitude de louvor diante dEle, porque a nossa existência foi projectada para viver em louvor a Ele e só assim esta fará sentido.
Louvamo-lo também com música mas certamente em tudo e com tudo! A música é muito mais para nós do que para Deus, serve para (ou pelo menos tem o intuito de) nos facilitar, despertar, desprender, concentrar. Louvar não é uma actividade, louvar é viver.

Na mesma dinâmica há pessoas cujas orações são uma aula a Deus onde lhe dizem o que ele tem que fazer. Dá a impressão que Deus não quer fazer o bem e nós precisamos de o demover desse estado de espírito. Houve alguém que disse que em muitas igrejas parece que a única pessoa que não é crente é Deus pois passa-se o tempo a dizer-lhe coisa do tipo: “Salva pessoas, Toca os nossos corações…” e assim parece que se tratam de coisas que Deus não quer fazer mas porque nós pedimos com muita força Ele acaba por ceder. A oração é muito mais a respeito de nós e do que queremos/precisamos que Deus faça em nós. Neste sentido pedir a Deus, para que Ele ‘salve pessoas’ deveria na verdade ser um pedido para que Ele me use, desperte e capacite para que eu seja um agente que ele pode usar para que pessoas possam vir a ser salvas. Faz sentido?

Servir a Deus é servir o próximo, não há outra hipótese.

E que dizer dos jejuns que são nada mais que greves de fome? Ou da obediência a Deus, que em vez de ser entendida como a forma de viver uma vida completa, é entendida como uma série de caprichos divinos que só nos limitam. Como se o prazer de Deus fosse alguma coisa diferente da nossa plena satisfação.
Ou ainda as pessoas que acham que vão à “casa de Deus”, como se Deus vivesse lá e nós ao Domingo fossemos lá visitá-lo para ouvir o que Ele tem para nos dizer. Uma igreja (edifício) é só um local propício para estar com os nossos irmãos, para aprofundar os vínculos de amor e nos servirmos uns aos outros com os nossos dons. É neste movimento que Deus se manifesta e fala aos nossos corações. Não vamos para consumir uma reunião, vamos para a criar.

Então e o “servir a Deus”? Como é que se pode fazer isso? Paulo diz que Deus: não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo. A bem dizer, como podemos ter a presunção de dizer que servimos Deus?! Aquele que é auto-suficiente e que ele próprio é o dador e o sustentador de qualquer impulso de serviço que eu tenha. Servir a Deus é servir o próximo, não há outra hipótese. É por isso que é uma aberração dizer-se que se ama a Deus e ao mesmo tempo não se amar os irmãos. É porque eu amo a Deus, que amo necessariamente também os meus irmãos. Lembram-se de Jesus que diz que quando fazemos alguma coisa aos seus pequeninos irmãos é ao próprio Jesus que estamos fazer e que isso será matéria segundo a qual seremos julgados?

E não é tão fácil confundir o serviço a Deus com as nossas práticas religiosas? No fundo porque por vezes elas são uma mesma coisa, é certo. Mas é bem possível estarmos a cumprir à risca os nossos deveres religiosos e institucionais e estarmos a milhas de fazer aquilo que Deus quer de nós. Como quando na história do Bom Samaritano o levita e o sacerdote (pessoas que trabalhavam no serviço religioso) não ajudaram o pobre homem, não sabemos porquê, mas uma boa desculpa seria ‘Tenho de ir servir a Deus, vai haver agora uma cerimónia religiosa e não me posso atrasar”.

Que eu possa entender que Deus é o potenciador e não o receptor das minhas atividades, seja fazendo algo em mim ou através de mim. Pois quando eu o conheço como Ele realmente é e ajo em conformidade, aí sim mais glória e louvor Ele recebe. O que Deus quer de nós é que vivamos vida eterna, e vida eterna é ‘Que te conheçam’ — como orou Jesus ao Pai. É só isto.


O Deus de Todos

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Há alguma coisa enorme a acontecer nas páginas do Novo Testamento, Paulo fala de um mistério escondido que agora havia sido revelado. Este mistério é que Deus afinal era Deus do mundo inteiro e não só Deus dos Judeus. Para nós que vivemos deste lado da cruz pode parecer uma ideia banal mas a verdade é que ela é revolucionária.

No início do povo Judeu, Deus promete que através de Abraão seriam abençoadas todas as famílias da terra. A ideia nunca foi abençoar um só povo no meio de muitos, mas a abençoar todos através de um. Quando João baptista estava a baptizar, aqueles Fariseus e Saduceus que se vangloriavam na sua linhagem foram repreendidos: Deus pode suscitar filhos a Abraão até mesmo das pedras.

Este mistério apesar de apenas plenamente revelado em Cristo, que disse que o Evangelho era para ser levado até aos confins da terra (e não só a Israel), deixa algumas pistas nos textos dos profetas. Deus diz através de Isaias: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança.
Egipto meu povo? Assíria obra das minhas mãos? Revolucionário. Ou mais escandaloso ainda através de Amós: Não me sois, vós, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? diz o Senhor: Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e aos filisteus de Caftor, e aos sírios de Quir? O quê? Houve mais Êxodos? Israel não foi o único?

A ideia nunca foi abençoar um só povo no meio de muitos, mas a abençoar todos através de um

Tenho para mim que Deus se revelou a todos os povos (de forma limitada é certo), e todos os povos estão preparados para receber o Evangelho. Paulo cita Davi: A sua voz ouviu-se em toda a Terra. As suas palavras chegaram até ao fim do mundo. O mesmo Paulo, junto ao altar baptizado por Epimênides, diz que Deus deu a todos a vida, a respiração e todas as demais coisas, para que tateando O pudessem achar. Que ao fim ao cabo o altar erguido ao Deus desconhecido era na verdade erguido ao Deus que Paulo conhecia.

Não é estranho pensar que vieram Magos do Oriente, seguindo uma estrela, para adorar Jesus enquanto que os próprios Judeus estudiosos das Escrituras estavam completamente alheios a essa realidade? E o que dizer (lembrando a provocação de Jesus) de que havendo tantas viúvas em Israel Elias acabou por curar uma viúva de Sidon, ou que havendo tantos leprosos em Israel quem foi curado foi Naamã, o Siro.
E o que pensar de Jesus elogiar a grande a fé do Centurião Romano e da mulher Siro-Fenícia e aos seus discípulos apelidá-los de homens de pouca fé? Ou que o exemplo de amor ao próximo venha de um Samaritano?

A grande reviravolta histórica acontece com Pedro a ser desafiado por Deus a ‘comer’ o que até então considerava impuro e com Cornélio, um gentio, não circuncidado, a ser cheio do Espírito Santo. Logo mais a igreja tinha a sua epifania: Portanto, Deus deu também aos que não são judeus a oportunidade de se arrependerem e de conseguirem assim a vida eterna!

As palavras do Cristo que ainda ecoam: Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus;
Diante de tudo isto temos duas hipóteses, ou achamos isto tudo uma história muito bonita presa no tempo, tal qual Cristãos-Judeus com sentimento de superioridade e que julgam ter um cartão VIP para o céu. Ou então entramos nesta história que ainda hoje se está a desenrolar e abraçamos este Evangelho para todos. Então aí começaremos a ter um vislumbre de todas as nações, e tribos, e povos, diante do Trono, dando louvores ao Cordeiro.


A Ira de Deus

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Um pastor assume diante da sua congregação que pecou, traiu a sua mulher, logo após fazer isso os fieis disseram que o amavam e que o perdoavam, nesse mesmo instante o pastor sofre um ataque cardíaco e morre. Um rapaz partilha esta notícia no facebook e escreve “Não podes enganar Deus”.

Afinal Deus quer que todos se salvem ou que todos se percam? A paciência de Deus esgota?
Quero esclarecer, antes que se suscite alguma confusão, que eu não acredito num Deus senil que tem um sorriso pálido mediante todos os cenários. O mal é mal. O pecado mata. A vida humana é sagrada e ir contra ela é fazer frente a Deus. Há um juízo e uma condenação. Deus ira-se contra o mal e não permitirá que este prevaleça, ele vai intervir.

Ele na verdade já começou a intervir. Levou todos os pecados, anulou toda a condenação e concede, a todos os que quiserem, a oportunidade de uma nova vida. Sim, aos que quiserem. Para o reino dos céus é-se convidado não pontapeado porta dentro.

Deus não mata gente, mas não vai impedir que gente exerça o seu direito de escolher a morte.

Paulo diz que dos céus se manifesta a ira de Deus, mas esta ira não é Sida (como algumas pessoas tristemente sugeriram) nem outras doenças venéreas enviadas melindrosamente por Deus à terra. Se continuarmos a ler Romanos 1 entendemos que esta Ira é Deus entregar as pessoas às suas próprias vontades. A ira de Deus é Deus a calar-se. A ira de Deus é que os homens que não querem a vontade de Deus, possam fazer a sua. É por isso que Deus corrige a quem ama, a correcção de Deus não procede da ira mas do amor.

Deus não mata gente, mas não vai impedir que gente exerça o seu direito de escolher a morte. Fica na boca um sabor amargo por saber que é possível usar da nossa liberdade para nos afastarmos de Deus. Desejo, como Deus primeiramente deseja, que de alguma forma todos os que estão debaixo da ira venham para debaixo da Graça, afinal todos nós já fomos filhos da Ira, mas Deus, estando nós nesse estado de trevas nos trouxe para a sua Luz.


Deus Não é Susceptível

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Como é que Deus se sente quando o insultam? Uma pergunta melhor, como é que Deus reage quando o insultam? Deus é susceptível? Deus fica melindrado? Eu creio que não. Mas há algumas pessoas que acreditam que sim.

Há pessoas que ficam melindradas com as pessoas que fazem pouco de Deus. Elas ficam mesmo irritadas como se o insulto fosse dirigido a elas. Elas sentem a necessidade de defender Deus e com isto revelam um Deus pequeno, um Deus que precisa de ser defendido.

Existem pessoas que inclusivamente ameaçam as pessoas em nome de Deus. Insinuam que Deus ainda as pode matar ou aleijar por elas gozarem com Ele. Com isto revelam um deus nada mais que humano, um deus com os nervos à flor da pele, um deus que antes que consiga perdoar aniquila o pecador na sua fúria. Os discípulos pensavam que Deus era assim, perguntaram a Jesus se era para pedir fogo do céu para consumir os Samaritanos, ao que Jesus responde ‘vocês não sabem de que espírito são’.

quando o insultavam, não respondia com insultos

Pessoas que defendem Deus só aumentam a vontade de que se goze com Deus. É assim que funciona, se alguém se sente picado, espicaça no gozador a vontade de picar ainda mais. Revelam um deus passível de gozação, um deus que precisa de ser defendido pelas suas criaturas.

Muita gente que goza com Deus na verdade só está a gozar com as caricaturas que lhe fazem, e neste caso deveríamos rir com eles, rimos das caricaturas e aproveitamos para apresentar o Deus verdadeiro, aquele que de tão perfeito não é passível de gozação.

Deus já foi ofendido e provocado no meio de nós e nós sabemos qual foi a sua reacção. Pedro lembra-se de como ‘quando o insultavam, não respondia com insultos’. Ele foi despido e chicoteado, cobriram-no com um manto púrpura, puseram-lhe uma coroa de espinhos na cabeça, cuspiram-lhe e bateram-lhe com uma cana, ajoelharam-se e disseram escarnecendo ‘Viva o Rei!’. Deram-lhe murros e provocaram-no dizendo ‘Profetisa quem te bateu’. Espetaram-no numa cruz e disseram ‘se és o filho de Deus sai dessa cruz’. Mas ele, como cordeiro mudo diante do seu tosquiador, não abriu a sua boca. O seu silêncio foi porém quebrado com uma oração em favor dos que dele escarneciam. Com o pouco folgo que tinha naquela cruz, ainda se esforçou em extremo e disse em voz audível ‘Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem’.


Com Certeza Tenho Dúvidas

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Toda a gente tem dúvidas não é? Ah não! Aquelas pessoas que sabem tudo não têm dúvidas, também já fui assim e tinha dúvidas, claro, não tinha era coragem de as admitir e de as enfrentar. No outro extremo estão as pessoas que não têm nada senão dúvidas.

A dúvida é um meio para reavaliarmos as nossas ideias e podermos chegar a um patamar de maior confiança. Digo confiança e não certeza, porque na minha condição finita não tenho capacidade de ter cem por cento de certeza a respeito de nada (acho eu). Tudo é passível de dúvida e em última análise existem sempre questionamentos que podem ser feitos.

Eu estou muito seguro de que os meus pais são realmente os meus pais, mas eu posso ter sido adotado (faz bastante sentido agora que penso na hipótese).  Então mas podes fazer um teste de ADN — Alguns de vocês podem dizer — E quem me prova que o teste de ADN não seria forjado?  Mas e se eu estudasse e fizesse o teste de ADN a mim próprio? Ainda assim podia haver um erro, ou por uma estonteante coincidência (1/100000, mais zeros talvez) eu ter a mesma impressão digital genética que o meu pai mas ele não ser o meu pai, ou então isto a que chamo vida é uma projecção da minha mente e eu sou o único ser que existe. Isto é provável? Claro que não! Isto é impossível? Não. Tudo é passível de dúvida.

A fé, neste sentido, preenche as lacunas do nosso conhecimento. É isto que me permite beber um copo de água e estar seguro de que este não tem veneno, é fé. Então a fé não é só coisa de crentes mas também de descrentes, todos temos fé. Um crente tem fé que Deus existe, um ateu tem fé que Deus não existe, nenhuma das afirmações pode ser provada.

Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade

Assim sendo a fé e as dúvidas não são incompatíveis. Aliás, como diz Kierkegaard, só existe fé se houver dúvida. Só quando eu tenho a possibilidade de duvidar é que tenho possibilidade de ter fé. Diria ainda mais, só as pessoas que convivem com estas duas realidades, dúvida e fé, é que têm uma fé com fundamento, porque elas questionam e ponderam se faz sentido ter fé, não se trata de uma fé cega.

Vale a pena dizer também que dúvida é diferente de incredulidade. O anjo Gabriel anuncia uma mesma coisa tanto a Maria como o a Zacarias — Vais ter um filho. — Ao que ambos respondem — Como é que isso é possível? — O Zacarias é castigado e fica mudo, a Maria fica bem. Eu diria que Zacarias foi incrédulo enquanto que Maria duvidou. Mas qual a diferença? Eu diria que a dúvida vem da mente, a incredulidade do coração. Dúvida é não entender, incredulidade é não querer ver.

A fé é um coisa difícil de compreender. Ela é uma dádiva de Deus ao mesmo tempo que é uma decisão (Não sejas incrédulo, mas crente — disse Jesus a Tomé). Fé é ter certeza apesar de se conviver com dúvidas. Este texto está longe de ser concreto, talvez seja apenas um desabafo das minhas dúvidas. Por vezes sinto-me como aquele pai que responde a Jesus — Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade. — Que é como quem diz Sim, Não e Ajuda-me, mas tudo ao mesmo tempo.


Estado Crítico

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Os meus últimos textos têm sido críticos, talvez quase todos os meus textos sejam críticos. Tenho criticado, tenho exposto aquilo que na minha opinião são incongruências, tenho denunciado aquilo que entendo como formas erradas de pensar. Mas faço isto na esperança que depois de derribar se possa construir.

Eu também quero dizer coisas boas e celebrar a vida com todo o entusiasmo, mas não dá para construir sem se demolir os alicerces degradados, não se pode construir sobre um fundamento que não é firme. O que Deus quer de nós Igreja não são retoques cosméticos, são transformações substanciais, uma nova (apesar de antiga) consciência. Deus não pode pôr vinho novo em odres velhos e não vai rasgar um pano novo para remendar um velho, pintar paredes por rebocar ou instalar novo software em computador obsoleto.

Mas a crítica é um terreno escorregadio, sei bem disso. Por vezes a linha entre a crítica construtiva e palavras de amargura é muito ténue. A diferença entre saber rir de incongruências e ser cínico por vezes fica muito esbatida, e eu preciso ter cuidado. É que demolir é diferente de ‘arrebentar com esta porcaria toda’. Crítica que não pressupõe que depois se arregace as mangas e se reconstrua a partir dos destroços é apenas bitaite. Bitaite é fácil, bitaite não muda nada.

A diferença entre saber rir de incongruências e ser cínico por vezes fica muito esbatida

Uma coisa é amar uma ideia e insurgir-se contra qualquer coisa que a impede de florescer, outra coisa é querer demonstrar superioridade intelectual. “O conhecimento incha, mas o amor edifica”. Crítica sem amor é só desdém.
É evidente que por vezes críticas são apenas desabafos, acho que há tempo para isso, mas não podemos ficar nesse patamar para sempre, de outra forma tornamo-nos amargos.

Eu quero amar as coisas que Deus ama. Penso que é por causa disso que sou crítico, pelo menos eu quero que seja esse o motivo. Sou crítico de ideias, não necessariamente de pessoas. Tento ser moderado, duro com os fortes, meigo com os fracos. Nem todos suportam tudo da mesma forma. E sobretudo quero ser autocrítico, antes de criticar o que quer que seja que eu próprio me submeta ao escrutínio. Que me olhe no espelho e me analise, que me apresente a Deus e me deixe ser corrigido, que me apresente a pessoas e esteja sempre disposto a ouvir uma opinião diferente sem ter logo a resposta na algibeira, ouvir e honestamente considerar.


Santificação

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Quando oiço a palavra santificação o meu red alert dispara automaticamente. É que penso sempre que alguma pessoa pode estar a dizer aquilo que eu acreditava há uns anos atrás, e isso amigos, é perigoso.

Na cabeça de algumas pessoas (ou será de muitas?) santificação é um regresso ao espírito da lei. “Sem santificação ninguém verá o Senhor” — dizem. Como que dizendo, se tu não fizeres então tu não vais (para o céu). Espera um minuto, onde é que eu já ouvi isto? Fazer algo para merecer a Salvação? Algo que é pura Graça vira mérito? Alguma coisa aqui não está certa.

Santificação é Graça. Santificação é algo que Deus faz em nós e não algo que nós possamos fazer por nós mesmos. Algumas referências para os mais ‘bíblicos’ (João 17:19; 1 Coríntios 1:30; 1 Tessalonicenses 5:23). É evidente que isto não significa que devemos ser seres inertes, que não haja algures em nós uma vontade que precisa ser rendida a Deus, mas significa também que eu não tenho de carregar o fardo de me tentar amestrar. Sim amestrar, porque só o que o Espírito Santo gera em mim é que é nova criação, novo eu, tudo o resto é amestramento. Ser gente é diferente de ser um macaco treinado a ser gente. Não é performance, é natureza. Não é pelo prémio nem pelo castigo, é pela consciência. Faz-se o bem, não porque tem de ser, mas porque é o que faz sentido.

É que o Santo, Santo, Santo habitou entre os homens e foi chamado de amigo de pecadores.

Há quem fale de santificação como separação. No hebraico qadosh a própria fonética relembra uma espada a cortar. E sem dúvida que santificação é separar, a questão é: separar do quê? De sítios? Existem sítios intrinsecamente maus, ou é o que se lá faz que é mau? De pessoas? Existem pessoas a respeito das quais eu não me posso aproximar, ou existe uma forma de me aproximar dessas pessoas?
É que o Santo, Santo, Santo habitou entre os homens e foi chamado de amigo de pecadores. Ao ponto de me fazer ver que quanto mais santa uma pessoa é mais magnetizada está em direcção dos pecadores. Quando mais escuro for o local mais vontade há de lá se mostrar a luz.

O mundo precisa de pessoas santas, pessoas de tal maneira transformadas por Deus que fazem a diferença. Mas enquanto a nossa santificação for ‘santsarrisse’ do género ‘jejuo duas vezes na semana e dou o dízimo de tudo, eu sou muita bom aquele ali é pecador não me aproximo’ não haverá diferença no mundo. Precisamos ser santos para que o mundo veja Deus em nós. Precisamos de ser santos para ficarmos mais parecidos com Jesus. Santifiquemo-nos porque sem a Santificação, ninguém verá o Senhor, em nós.


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